Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje, 

assim calmo, assim triste, assim magro, 
nem estes olhos tão vazios, 
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força, 
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança, 
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?

-Cecília Meireles.

(Source: nonsenseblood)

O Laço de Fita- Castro Alves

Não sabes, criança? ‘Stou louco de amores…
Prendi meus afetos, formosa Pepita.
Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!
Não rias, prendi-me
Num laço de fita.

Na selva sombria de tuas madeixas,
Nos negros cabelos da moça bonita,
Fingindo a serpente qu’enlaça a folhagem,
Formoso enroscava-se
O laço de fita.

Meu ser, que voava nas luzes da festa,
Qual pássaro bravo, que os ares agita,
Eu vi de repente cativo, submisso
Rolar prisioneiro
Num laço de fita.

E agora enleada na tênue cadeia
Debalde minh’alma se embate, se irrita…
O braço, que rompe cadeias de ferro,
Não quebra teus elos,
Ó laço de fita!

Meu Deusl As falenas têm asas de opala,
Os astros se libram na plaga infinita.
Os anjos repousam nas penas brilhantes…
Mas tu… tens por asas
Um laço de fita.

Há pouco voavas na célere valsa,
Na valsa que anseia, que estua e palpita.
Por que é que tremeste? Não eram meus lábios…
Beijava-te apenas…
Teu laço de fita.

Mas ai! findo o baile, despindo os adornos
N’alcova onde a vela ciosa… crepita,
Talvez da cadeia libertes as tranças
Mas eu… fico preso
No laço de fita.

Pois bem! Quando um dia na sombra do vale
Abrirem-me a cova… formosa Pepital
Ao menos arranca meus louros da fronte,
E dá-me por c’roa…
Teu laço de fita.


(Source: nonsenseblood)

404 Not Found Error, parte 1.

Eu tenho inveja do teu violão,
E eu te amo tanto que me dói saber que ele te possui há mais tempo do que eu,
Eu tenho inveja do teu violão,
Ele possui memórias de ti que não possuo, e que nunca poderei possuir
Eu tenho inveja do teu violão,
Ele guarda seus medos e anseios, como eu ainda não posso guardar
Eu tenho inveja do teu violão, mas em breve ele também me invejará
Pois eu guardarei coisas de ti que ele não poderá guardar,
Meu corpo absorverá tua saliva, teu suor, teu gozo
Meu corpo absorverá teus beijos e carícias, assim como ele não poderá
Eu tenho inveja do teu violão,
Pois tu dedilhas o corpo dele todos os dias, assim como não dedilhas o meu
Mas em breve teu violão também me invejará,
Pois tu irá tocar acordes com a sua língua na minha
E isso de ti ele não terá
Eu tenho inveja do teu violão,
Pois ele está próximo do seu corpo o tempo todo, assim como não estou
E eu te amo tanto que me dói saber que ele te possui todos os dias
Pois saibas que eu tenho um violão também, mas ele esteve abandonado há anos, assim como eu também estive
E quando tu tocas teu violão, não me sinto mais tão sozinha como antes,
Eu vejo o brilho dos teus olhos, o calor do teu sorriso, e isso me vale o dia
Mesmo estando aqui tão longe de ti, eu te sinto como nunca senti alguém antes
Eu sinto que tu és alguém que esperei durante a minha vida toda, assim como meu violão esperou que um dia alguém o dedilhasse da forma perfeita
E eu ainda invejo teu violão por teres te conhecido antes de’eu
E eu só pararei de invejar tanto ele, quando tu vieres me buscar
E me deixar absorver fluídos do teu corpo, assim como ele não poderá

— Joice Oliveira (via nonsenseblood)

404 Not Found Error , parte 2.

Eu odeio cigarro e relacionamento sério,
Eu odeio ilusões e amores perdidos,
Eu odeio barba crescida e áspera,
Eu odeio loucuras e demonstrações de amor,
Eu odeio a distância e o medo,
Eu odeio minha cara de sono, e meu olhar de choro
Eu odeio café, e prefiro chá
Eu odeio saber que muitos não te veem, como eu vejo
E eu odeio você por me fazer mudar de ideia quanto a quase isso tudo
Eu odeio você por me fazer amar coisas que um dia eu tanto odiei
Eu odeio você por fazer meu coração apertar, e sangrar
Mas eu te amo por isso também, pois tu fazes ele meu sangue bombear
E eu ainda odeio o café e a distância,
Minha cara de choro, menos a petulância!
Mas a ti agora é o quê eu amo mais odiar, pois é em ti que eu quero estar
Um dia eu amei a autodestruição, mas hoje eu não a amo mais por tua causa
E eu quero que tu não faças mais aquilo, com aqueles comprimidos
Eu ainda te odeio e quero que me odeies também, 
Por eu ser tão errada e tão ingrata, e espero que um dia me perdoes por isso
Tu odeias minha timidez e meus bloqueios,
Minhas desventuras e devaneios,
Tu odeias o quão séria eu sou
Tu odeias a forma que eu vivo sem viver,
Mas tu me ensinastes a odiar essas coisas também
E eu espero que saibas disso, espero que saibas o quanto tu me mudastes
E o quanto eu amo te odiar

— Joice Oliveira (via nonsenseblood)

Aborto 95% concluído.

Abortando sentimentos,
Desfazendo meus afeitos
Morrendo por dentro
Descobrindo teus reais defeitos,
Vista grossa em teus pseudos anseios
Meu a-m-o-r!
Paranoia a 100km por hora,
Tu és 8 ou 80
Já eu 8, 0 ou 80
Bipolar, tripolar…abortar!
Vazio crônico ou amor sinfônico?
Ânsia de vômito…
Vejo moscas volantes no teu semblante,
Mas nada como antes
Piloto automático…
Onde é que tu te escondes?
Onde quer que eu te encontre?
Talvez tu nem exista, fostes apenas projeção da minha mente
Histeria coletiva…
Engano meu, devo me desculpar?
Devo continuar a me asfixiar?
Onde é que tu estás?
Não irei mais me manifestar, entoar, ou ressonar
Preciso de alguma forma, encontrar entre minhas entranhas
o que restou de mim
Mas eu acho que ainda gosto…de ti.

— Joice Oliveira (via nonsenseblood)